“Parece-nos importante ter alguna cautela em relação ao consenso atual. Embora um cenário de crescimento moderado ou ligeira recessão seja totalmente possível, há várias razões para pensarmos que as coisas podem ser diferentes.“
Stefan Hofrichter
Diretor de Economia e Estratégia Globais
Crescimento mais lento — melhores rendimentos?
O consenso sobre o crescimento económico mundial e, em particular, sobre o crescimento dos EUA, continua a ser bastante positivo. A maioria dos analistas espera uma “aterragem suave” para a economia norte-americana, na qual o banco central consegue abrandar a economia sem desencadear uma recessão, ou apenas uma ligeira recessão. Uma recessão mais profunda é considerada apenas um risco externo.1
Só cerca de dois em cada cinco economistas norteamericanos preveem uma recessão nos próximos trimestres2. Instituições internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), preveem um crescimento mundial moderado, seguido de uma recuperação em 2024. As previsões de crescimento dos bancos centrais são semelhantes. A relativa resiliência da atividade económica até agora, sobretudo nos EUA, tem apoiado esta perspetiva positiva.
No entanto, parece-nos importante ter alguma cautela em relação ao consenso atual. Embora um cenário de crescimento moderado ou ligeira recessão seja totalmente possível, há várias razões para pensarmos que as coisas podem ser diferentes.
Em primeiro lugar, os economistas são notoriamente maus a antecipar recessões (ver Gráfico 1). Mesmo na véspera da recessão mais grave das últimas décadas — a crise financeira mundial —, a maioria esperava uma aterragem suave.
Em segundo lugar, vários dos principais indicadores continuam a ser consistentes com o início de uma recessão nos EUA entre o final de 2023 e a primeira metade de 2024: este é o sinal da yield curve invertida, da contração da massa monetária (devido ao aperto do banco central) e do facto de as taxas do banco central estarem acima dos níveis neutros e, por isso, em terreno “restritivo”.
Inflação: teimosamente elevada
A inflação continua teimosamente elevada e bastante acima do objetivo de 2% dos principais bancos centrais, apesar de estar significativamente abaixo das taxas de inflação máximas de 2022.
A resiliência da inflação não é surpreendente para nós: o aumento acentuado entre 2021 e 2022 foi impulsionado não só pelos choques da COVID-19 e dos preços da energia, mas também pela liquidez excessiva no sistema após uma flexibilização muito grande da política monetária.
Três choques de longo prazo do lado da oferta também estão a contribuir para uma inflação estruturalmente mais elevada. O primeiro é a desglobalização. Mais precisamente, o facto de o crescimento do comércio em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB) mundial estar a diminuir devido a uma maior regionalização das cadeias de abastecimento, entre outros fatores. A descarbonização e um mercado de trabalho estruturalmente mais retraído devido a alterações demográficas são outros fatores.
Sabemos de experiências anteriores que, após um período de inflação elevada, podem ser necessários vários anos para que a inflação volte a descer para níveis baixos devido a efeitos de segunda ordem, como espirais salários-preços (salários mais elevados conduzem a preços mais elevados e vice-versa) ou estratégias de markup por parte das empresas.
Neste contexto, questionamos se os mercados estão corretos ao preverem que os principais bancos centrais não vão voltar a subir as taxas e que haverá cortes significativos a partir de meados de 2024. Em suma, esperamos taxas mais elevadas durante mais tempo do que o cenário considerado pelo consenso.
Pode este consenso estar a refletir a expectativa de que um maior crescimento da produtividade possa ajudar a baixar a inflação? É verdade que estamos a assistir a grandes mudanças tecnológicas, sendo a inteligência artificial (IA) generativa apenas o exemplo mais recente. Estes avanços podem aumentar a oferta agregada na economia mundial e, eventualmente, ajudar a baixar a inflação. Mas ainda não temos dados concretos sobre isso. Até agora, os números do crescimento da produtividade não estão a mostrar sinais de um aumento estrutural. Embora o crescimento da produtividade possa ser apoiado pela inovação tecnológica, também pode ser travado por fatores como os “maus investimentos” e as consequências a longo prazo do rebentamento de bolhas de crédito ou guerras, como a história nos mostra.
Um pico nos yields das obrigações?
Os yields nos níveis mais elevados em mais de uma década e meia, com a iminência de uma recessão económica, tornariam as obrigações soberanas de elevada qualidade objetivamente atrativas. No entanto, continua a ser difícil prever o pico dos yields das obrigações. Estaríamos mais confortáveis se os preços nos mercados estivessem a refletir a trajetória futura das taxas dos bancos centrais de forma mais conservadora e numa perspetiva de taxas mais elevadas durante mais tempo.
Os investidores devem estar atentos ao potencial fim da política de longa data do Banco do Japão (BoJ) de limitar as taxas de juro de longo prazo, uma medida que poderá ter repercussões nos mercados obrigacionistas mundiais. Os preços da energia são outro fator de incerteza, sobretudo após o terrível ataque a Israel no início de outubro de 2023.
Acreditamos que as expectativas de crescimento têm de ser ajustadas em baixa e, por isso, é provável que os ativos de risco enfrentem maiores desafios e uma maior volatilidade. Historicamente, tem sido mais rentável investir em ações e obrigações não soberanas durante uma recessão, e não antes dela. E qualquer potencial reavaliação do preço das obrigações teria provavelmente repercussões nas ações.
Nos dois últimos anos também assistimos a “acidentes” no sistema financeiro: em 2022, o sistema de pensões do Reino Unido esteve sob pressão, enquanto no início de 2023 testemunhámos a falência de vários bancos, nomeadamente nos EUA. O pior pode já ter passado, mas não podemos excluir mais acontecimentos, como nos recordam repetidamente o Conselho de Estabilidade Financeira, o FMI, os bancos centrais e outras instituições. O elevado grau de alavancagem da economia mundial e o aumento sustentado das taxas de juro são a receita para a instabilidade financeira. Desta vez, o risco pode estar mais nas instituições financeiras não bancárias do que nos bancos. Uma cobertura do risco de cauda pode ser uma boa ideia.
Gráfico 1: os economistas têm falhado sistematicamente na antecipação de recessões. Será igual desta vez?

Nota: probabilidade de recessão com base no Federal Reserve Bank of Philadelphia’s Survey of Professional Forecasters (SPF). O gráfico corresponde aos períodos de expansão/recessão nos EUA com a mediana da probabilidade de recessão do inquérito de há dois trimestres. Fonte: Allianz Global Investors Global Economics & Strategy, Bloomberg (dados de 30 de setembro de 2023). Os resultados anteriores não são um indicador dos resultados futuros.
1 Fonte: inquérito do Bank of America a gestores de fundos em todo o mundo, outubro de 2023.
2 Fonte: Consensus Economics, outubro de 2023.